Apresentação-OBOÉ.03 Cotidiano Segurança
Alunos em uma de suas apresentações em Fortaleza

O policiamento comunitário ultrapassou os limites do patrulhamento em viaturas e se apresentou a crianças e adolescentes com som e ritmo. É o projeto “Violão Comunitário”, que leva aulas de música para a garotada que mora em quatro comunidades situadas na Capital cearense. A iniciativa, de um cabo e dois soldados da Polícia Militar do Estado do Ceará (PMCE), já impactou na vida de mais de 800 jovens ao longo de seis anos.  Os três militares fazem parte da  2ª Companhia do 1º Batalhão de Polícia Comunitária (BPCom), em Messejana.

O projeto faz alusão ao policiamento comunitário e se transformou em mais uma estratégia dos policiais. O objetivo é inibir o acesso às drogas e à violência dentro das comunidades do Edson Queiroz, Barroso, Alagadiço Novo e Tancredo Neves. A escolha do local não foi por acaso. “ São locais com índice de criminalidade elevados, além de ser nossa área de trabalho”, explica o soldado Dennis de Melo Milanez, um dos idealizadores do projeto, juntamente com o soldado Denis Holanda e o cabo Ângelo Costa.

Os três militares possuem conhecimentos musicais e durante o expediente realizam projetos sociais, em  igrejas, conselhos e associações comunitárias e onde mais puderem instruir os alunos. “Não deixamos de realizar o policiamento ostensivo. O ‘Violão Comunitário’ é uma estratégia de diminuir a violência a curto e longo prazo”, defende o sd Milanez, ao explicar que as aulas fazem parte da rotina diária de trabalho deles. Mas o curso de música não é objetivo central. “O violão é o atrativo para a criançada”, diz o soldado Denis Holanda, ao revelar que o principal interesse é alertar os estudantes abordando assuntos como o combate às drogas e à violência, além de explanarem princípios de cidadania, respeito e disciplina. “Este é o trabalho preventivo que desenvolvemos, para que elas (crianças) não se envolvam com gangues ou tráfico de drogas, mas que sejam impactadas positivamente e, assim, conseguirmos reduzir a criminalidade”, completa.

Com interação entre a Polícia e os membros da comunidade, sem burocracia e com fácil acesso. É assim que o curso é desenvolvido. Para participar, basta ser morador ou moradora do bairro em questão, ter entre 08 e 18 anos, querer aprender e ter tempo livre – pois uma das idéias é diminuir o tempo de ociosidade dos jovens, para que não sejam atraídos para a marginalidade. As aulas são oferecidas quatro dias por semana, cada dia em uma região diferente.

Mas o “Violão Comunitário” não para por aí. O projeto influenciou alguns adolescentes a darem continuidade aos estudos de música. Hoje, eles são professores, músicos profissionais e com bandas próprias. “A música tem esse poder, de atrair e alegrar as pessoas e nós estamos aproveitando isso para melhorar nosso dia a dia no trabalho”, declara o sd Milanez. “Essa é a contribuição que fazemos para a vida deles”, complementa o cabo Ângelo. Os alunos já realizaram apresentações em praças, no Comando de Policiamento Comunitário (CPCom) e na Assembléia Legislativa, durante aniversário do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), da Polícia Militar.

A idéia do projeto surgiu quando os militares patrulhavam pela região e percebiam dificuldades de aproximação entre a Polícia e os moradores. Os ensinamentos são recíprocos. “A gente aprende muito com essas crianças, como a ser mais paciente, compreensivo e amigo, inclusive nas redes sociais”, conta o cabo Ângelo, que também é lutador de jiu-jitsu e expõe suas conquistas como exemplo para a garotada. O policial ainda fala que o referencial que as crianças tinham era o de criminosos envolvidos com o tráfico, que “ostentavam” dinheiro como sinônimo de poder. “Além de novo referencial, nós somos ‘tios’ deles (crianças e adolescentes)”, brinca o agente de segurança.

Exemplo de vida

“Eu amo os policiais e espero que o curso nunca acabe”. Esse é o desejo de Lucas de Abreu Câmara (13), que participa do projeto há dois anos. Lucas recebe aulas todas as quintas-feiras na Igreja Nossa Senhora das Graças, a qual frequenta e que fica próximo a sua casa, no Barroso. Com os conhecimentos adquiridos no “Violão Comunitário”, o garoto conquistou um lugar no Ministério Verbum Dei, com apresentações no templo religioso, e ainda auxilia os policiais com os principiantes no curso.

lucas Cotidiano Segurança
Lucas de Abreu Câmara (13)

“Eu gosto muito do curso e gosto quando eles (policiais) falam pra gente não se aproximar de pessoas com más influências”, declara o menino, com orgulho pelo fato de muitos membros de sua comunidade religiosa se alegrarem com seu crescimento. “Eles acham lindo e dizem ‘olha, um menino dessa idade já tocando na igreja’. Eu fico feliz”, celebra, já com planos para o futuro: “Pretendo aprender a tocar teclado e fazer faculdade de música”, planeja com muito entusiasmo.

Ao declarar que não queria sair do curso, Lucas foi alertado de que poderia permanecer até completar 18 anos. Mas ele retrucou: “Então quero continuar com 13 anos pra sempre”! E deixa um recado: “Eu agradeço muito a eles (policiais), por terem criado esse curso, me ensinando a tocar as músicas e me orientando. Que isso nunca acabe”.